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10 de fevereiro de 2010
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Inserida em: 14/7/2006
Reportagem: Reinaldo José Lopes
Força de mente
Tecnologia ajuda tetraplégico a ler e-mails. Nicolelis questiona experimentos. Para pesquisador da área, tecnologia usada em teste com dois pacientes não é confiável nem eficaz para aplicação em grande escala
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Ao implantar eletrodos no cérebro de um jovem tetraplégico, pesquisadores dos Estados Unidos deram mais um passo na tentativa de criar próteses robóticas movidas simplesmente pela força de vontade humana. Os sensores, ligados a um computador que traduzia os impulsos cerebrais em comandos, permitiram que o rapaz movesse uma seta na tela de um computador, lesse e-mails e até abrisse e fechasse uma "mão" mecânica.

Publicado na revista científica "Nature" (www.nature.com) de hoje, o relato do teste está sendo classificado como um avanço importante na tentativa de dar certo grau de independência a pessoas com paralisia -sem falar na sonhada conexão direta entre o cérebro humano e as máquinas.

Mas um dos principais pesquisadores da área, o brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke (EUA), questionou o valor científico e mesmo terapêutico dos experimentos. "Essa tecnologia não vai a lugar nenhum", disse Nicolelis à Folha. A pesquisa capitaneada por John Donoghue, da Universidade Brown (Estados Unidos), já é incomum por uma frasezinha no final do artigo científico, quase nunca encontrada na "Nature": "Os autores declaram ter interesses financeiros conflitantes". É que Donoghue e vários de seus colegas também trabalham numa empresa, a Cyberkinetics, cuja intenção é justamente comercializar uma prótese cibernética -caso os pesquisadores consigam
desenvolvê-la, claro.

Facada

No trabalho, os pesquisadores testaram o conceito, já demonstrado amplamente em testes feitos em macacos por Nicolelis e outros, em dois homens tetraplégicos: Matthew Nagle, 25, e um paciente de 55 anos nos quais o experimento fracassou. Naggle levou uma facada que cortou sua espinha e o paralisou em 2001.

A aposta de Donoghue era que, apesar do fim da conexão da parte do cérebro que comanda os movimentos com a espinha, a região cerebral em si ainda podia funcionar. E foi nela, o chamado córtex motor primário, que eles implantaram 96 eletrodos, que "liam" os impulsos elétricos dos neurônios.

Depois que tudo ficou no lugar, pediram ao rapaz que imaginasse estar mexendo uma seta na tela de um computador, seguindo um cursor movimentado pela equipe. Isso "ensinou" o sistema a ler e traduzir a atividade cerebral do paciente em movimentos. E, a partir daí, Nagle conseguiu abrir e-mails, regular o volume e escolher o canal de uma TV e abrir e fechar os dedos de um braço robótico. Ele só precisava pensar em realizar a ação e podia fazer isso até conversando, "embora o movimento fosse meio trêmulo e instável", afirmou Donoghue ao programa de rádio on-line da "Nature".

Nicolelis aponta outros problemas sérios no teste. Para começar, mais da metade dos eletrodos deixou de funcionar depois de seis meses de implantação. "Esses eletrodos de ponta fina e rigida tendem a destruir o tecido e a causar reações inflamatórias. Existem outros eletrodos muito melhores", diz ele. Também teria sido melhor, diz o neurobiólogo brasileiro, se várias regiões do cérebro fossem "lidas" ao mesmo tempo, porque isso garantiria um sinal mais confiável. "Eles mal e mal reproduzem coisas feitas em macacos", afirma Nicolelis, cujo grupo também busca aplicar a técnica em humanos. "Mas foi bom eles terem publicado esses dados, porque eles mostram que esse não é o caminho a seguir."


Fonte : Folha de São Paulo


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