Entusiasmada com a passeata que o Movimento Superação de São Paulo realiza anualmente em prol do movimento socioinclusivo da pessoa com deficiência, a terapeuta ocupacional Pilar Nieva, de 25 anos, que nasceu e mora em Santa Fé, na Argentina, resolveu criar em sua cidade o Movimiento SuperAcción. A experiência deu tão certo que a ONG já realizou a segunda edição da passeata, no dia 24 de outubro deste ano. O evento reuniu mais de 300 pessoas pelas principais avenidas da pequena cidade argentina, que tem cerca de 500 mil habitantes.
Na entrevista a seguir, Pilar que é coordenadora geral do Movimento argentino conta como surgiu a ONG, como outras organizações que trabalham com pessoas com deficiência, governo e sociedade civil estão aderindo à iniciativa. Ela também discorre acerca da acessibilidade no País.
Como surgiu o Movimiento SuperAcción?
Pilar - Começarei pelo início da história, porque se não acharão que foi maluquice (apesar deter sidoum pouco mesmo). Em 2006, conheci a galera do Movimento Superação de São Paulo na Reatech e gostei muito do trabalho deles, do jeito de pensarem e fazerem as coisas. Quando voltei pra Argentina achei que serialegal montar um grupo como o SuperAção, já que aqui não tem muitas ONGs que trabalham na mudança de um pensamento, na sensibilização social. Continuei fazendo contato com o Billy, que é o presidente do Movimento aí no Brasil, pela internet e sempre foi num plano de brincadeira de que algum dia o dragão (símbolo de cor laranja do Superação) seria azul e branco, mas eu nunca imaginei que em Setembro do 2008 o Billy falaria sério e me faria a proposta de começar com uma passeata aqui em Santa Fé, que fica cerca 500 quilômetros ao norte de Buenos Aires. Aí juntei uma galera, alguns colegas da faculdade, outros que foram aparecendo, amigos de amigos, desconhecidos, foram chegando e somando. No dia 3 de Outubro de 2008 o Movimento SuperAção de São Paulo oficializou a filial Argentina que passou se chamar Movimiento SuperAcción. Então, começamos uma correria danada, porque queríamos fazer a nossa primeira passeata no mês de Dezembro. Foram 1 bilhão (literalmente) de e-mails trocados com o pessoal de São Paulo. Imagina, eu só conhecia a passeata por fotos, nunca tinha ido numa. Aqui, só eu conhecia o pessoal aí do Brasil. O resto da galera daqui nem sabia o que era SuperAção e tínhamos dois meses pra organizar a passeata! Mas tudo tinha que dar certo, porque nós queríamos muito começar fazer alguma coisa pra mudar o mundo, e sabíamos que a parceria ia rolar, quando se tem vontade sempre dará certo!
Como foi a participação do público no ano passado e neste ano?
Pilar - Santa Fé é uma cidade com cerca de 500 mil habitantes, não é muito grande. Na primeira edição juntamos por volta de 150 pessoas. Ficamos mais do que satisfeitos, porque sabíamos que tínhamos só dois meses e meio de existência, poucas pessoas tinham ouvido falar do SuperAcción e além disso, o dia estava nublado. Já na segunda edição o número de participantes dobrou, superando as nossas expectativas. O prefeito da cidade também compareceu e foi o nosso primeiro contato com ele como ONG. Nessa ocasião, aproveitamos para marcarmos uma reunião com ele já para início do próximo ano, e foi assim que começamos envolver a prefeitura nas nossas idéias. O público está começando a entender como o SuperAcción quer se manifestar. Foi uma festa mesmo, o pessoal dançou, brincou, riu demais! Infelizmente a Argentina tem uma história de manifestações sempre ligadas à violência, à reclamação, ao panelasso. Tentar impor um jeito de manifestação que esteja ligado à celebração, à arte, à alegria, que não seja pra reclamar de forma agressiva, sendo apenas para celebrar a nossa existência e mostrar a cara pra sociedade, é um desafio. Achamos que levaríamos muitas mais passeatas, mas não, as pessoas já entenderam nosso jeito, e a passeata foi uma festa!
Houve participação efetiva tanto das próprias pessoas com deficiência como das entidades que trabalham com esse segmento da população?
Pilar - No ano passado foi difícil chegar até as outras entidades. Elas tinham receio de que tirássemos o trabalho delas. Criticavam a influência de uma ONG brasileira aqui e talvez não acreditavam em nosso potencial por sermos todos jovens e sem experiência. Mas como nós somos muito pacientes, fomos conversando cada vez que podíamos com as diferentes entidades, enviávamos e-mails para quase todas elas de vez em quando, só para saberem que estávamos dando continuidade ao trabalho, que não foi só uma passeata, mas sim a primeira de muitas. Também deixamos claro que a intenção é somar, trabalhar juntos. Esse ano, várias entidades compareceram na passeata, não o tanto que gostaríamos, mas um bom número. Como fruto da passeata recebemos um convite da "União de Entidades" para participar de uma reunião de troca de idéias com todas as ONGs da cidade. Vamos chegando onde queremos chegar!
Como a inclusão social da pessoa com deficiência é tratada, tanto pelo governo como pela sociedade civil?
Pilar - Apesar de existir algumas leis que foram criadas pra exigir que pessoas com deficiência sejam incluídas no trabalho (só na parte pública é exigido) e nas escolas, na prática isso não acontece desse jeito e viram letra morta. Nos governos, tanto federal como estadual, ainda há pouca preocupação, e menos ação ainda, acerca da questão. A inclusão social da pessoa com deficiência não está ainda tendo a devida atenção. A Argentina está atrasada em matéria de respeito aos direitos humanos, e especialmente aos direitos dessa parcela dapopulação. O acesso ao meio físico, ao trabalho a reabilitação não é totalmente garantido.