Sentidos - A inclusão social da pessoa com deficiência
9 de fevereiro de 2010
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Revista Sentidos - Edição 56
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Inserida em: 22/10/2004
Foto: arquivo pessoal
Reportagem: Adriana Perri
Tabata Contri
Posso fazer tudo só que de um jeito diferente, a cadeira é só um detalhe na minha vida, uma virgula, nunca um ponto final!, afirma a jovem que faz sucesso no mundo dos negócios e no teatro.
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O musical Noturno, de Oswaldo e Deto Montenegro, vem sendo apresentado em São Paulo desde 1991, com sucesso de público e crítica. Quem assistiu a versão 'cadeirantes' do espetáculo se deparou com grandes talentos no palco. Entre eles, no elenco de 16 cadeirantes, está Tabata Carolina Contri, 24 anos. Modesta, ela se diz 'atriz nas horas vagas', contudo seu talento teatral é evidente. Versátil, encanta em papéis dramáticos e faz rir nos cômicos, canta e dança. "Amo estar no palco! Se pudesse, essa seria minha única profissão, mas ainda não me dá a grana necessária pra eu sobreviver com todos os gastos de um cadeirante", lamenta Tabata.

Na 'vida real' ela garante seu sustento como gerente de vendas em uma empresa de adaptações veiculares, produtos e serviços para deficientes físicos, a Cavenaghi. "Adoro atender o público, conhecer gente nova e poder ajudá-las", resume com prazer suas funções. Tabata começou trabalhando em feiras, aprendeu a lidar com gente de todo o tipo, e hoje alcançou um cargo na gerência de uma das maiores empresas do ramo do país, com 40 anos de tradição. Sua ambição, já que ainda não cursou uma faculdade, é fazer uma na área de comunicação, pode ser Jornalismo, Rádio e TV ou Marketing. "Nunca tinha pensado em qual faculdade eu faria antes da lesão. Depois que participei do Caça VJ MTV, em 2002, e adorei, me despertou a vontade de fazer algo assim."

O divisor de águas na vida de Tabata foi um acidente de carro no último dia do ano de 2000, 31 de dezembro, a caminho de Trindade, na divisa do litoral de São Paulo e Rio de Janeiro. "O carro caiu numa ribanceira de dez metros. Foi no tempo de um piscar de olhos, mas a lembrança é na forma de câmera lenta. Todos saímos vivos, mas já não sentia mais minhas pernas", relembra. Dos quatro ocupantes do carro, ela foi a única a ficar com uma seqüela permanente: paraplegia. "Naquele momento eu achava que dali a um mês eu estaria andando de novo... doce ilusão. Tudo mudou, meu metabolismo, meu jeito de fazer xixi, coco, o não sentir, tudo era estranhamente novo e assustador. Foram seis meses de tristeza. A dependência pra tudo, era o que mais me incomodava já que sempre fui tão independente! Faltava paciência para esperar um copo d'água sendo que se eu andasse poderia já ter tomado ao invés de esperar minutos que pra mim mais pareciam horas. A única magoa que eu tinha, que hoje já não tenho mais (graças a Deus!) era com o Beto que dirigia o Ford Ka (do acidente): ele simplesmente não estava nem aí para o que estava acontecendo comigo. Hoje não culpo ninguém e até encaro o lado bom de ser cadeirante, tudo que aprendi, as pessoas que conheci e tudo que eu faço!"

Tabata mora com a mãe e irmã mais nova, Tamara, e está namorando. Se confessa apaixonada. "Tive alguns namorados nesses três anos e meio de lesão e não tenho preconceito, já namorei andante, cadeirante. Todos foram especiais, mas agora é mais ainda, estou amando!"

Enquanto Tabata continua trabalhando muito para conquistar seus objetivos e se prepara para estrear seu terceiro espetáculo no teatro, confira abaixo a entrevista que ela concedeu a Sentidos e conheça um pouco de sua forte e divertida personalidade.


Sentidos: O que mais gosta de fazer? E o que menos gosta?
Tabata Contri: Adoro estar com meus amigos, rir das besteira que eles falam e eu também, beijar na boca, cuidar do meu corpo, dormir bem, estar com minha família, ouvir música, fazer teatro, escrever...! Não curto muito não ter tempo pra fazer algumas coisas que eu gostaria, acordar cedo, e quando alguém diz, "Tadinha, tão bonita, tão novinha e desse jeito..." , fala sério!

S: E seu lazer, o que faz?
Tabata: Baladas!! (risos) Vou ao teatro (sempre), cinema, adoro ir a shows de amigos. Tenho muitos amigos que cantam na noite e 'mandam muito bem'. Gosto de baladas mais intimas na casa de alguém com um violão, uma galera legal e um bom vinho, mas também vou em lugares agitados, adoro a Vila Madalena, lá sempre tem uma boa opção!

S: E o início da carreira artística: já tinha interesse por teatro antes do Noturno?
Tabata: O Teatro surgiu na minha vida há pouco tempo. Antes do Noturno fiz o musical Good Morning São Paulo em 2003, com um elenco de 45 pessoas. Depois veio o Noturno, do Oswaldo Montenegro, que foi todo aquele sucesso. Tudo começou quando o diretor Deto Montenegro encontrou minha amiga Carol, também cadeirante, no Rio de Janeiro. Ele já tinha vontade de trabalhar com cadeirantes, mas não tinha experiência, aí a Carol me chamou pra ir com ela assistir uma aula na Oficina dos Menestréis. A gente simplesmente se envolveu e não teve como não fazer parte de tudo aquilo. O palco é um lugar mágico, e o Deto um p... diretor. Estou indo para minha terceira peça com a companhia dos menestréis cadeirantes. Estréia em dezembro desse ano. Fiz, também, o clipe da música Meu Sonho do Kaleidoscópio.

S: E o futuro como atriz?
Tabata: A arte no Brasil ainda é pouco valorizada, ainda é difícil conseguir apoio cultural ou um patrocínio. Amo estar no palco, se pudesse essa seria minha única profissão, mas ainda não me dá a grana necessária pra eu sobreviver com todos os gastos de um cadeirante, mas estou super aberta a novos trabalhos. Sei que tudo exige muita dedicação e 'ralação' pra ter um resultado lindo como foi o do Noturno. Acho que na TV faltam cadeirantes de verdade, a gente vê em novelas pessoas que voltam a andar milagrosamente e isso infelizmente não é a realidade. Gosto de mostrar para as pessoas que um deficiente físico pode ser tão talentoso, competente, bonito, sensual e profissional como qualquer um.

S: Vc escreve em um blog, tem algum motivo especial para escrever na internet? Como é a troca na blogosfera?
Tabata: O blog surgiu com uma vontade de extravasar. Adoro escrever e na internet tenho muitos leitores fofos, que sempre comentam meus posts. Lá eu formo opiniões e me informo, é incrível como as pessoas do mundo todo se encontram na net. Um dia desses tinha um recado de um amigo meu que está no Japão que eu não vejo há anos, isso é o máximo!

S: Já foi vítima de preconceito?
Tabata: O preconceito parte da gente mesmo, enquanto a gente se sentir o 'monstro do Lago Ness', todos vão te olhar como tal. Agora se você se sentir maravilhosa e feliz, é assim que as pessoas vão te ver. A população foi mal educada com pouca convivência. Quando eu era criança na escola, tinha a classe dos especiais e a dos normais, ridículo! Criou-se uma distância e um conceito errado. Hoje é lei e pessoas com deficiência freqüentam a mesma sala que todo mundo. Isso é legal porque todos passam a encarar com normalidade a 'parada', e crescem com uma mente mais aberta.

S: Onde fez sua reabilitação?
Tabata: Me reabilitei e reaprendi a viver no hospital Sarah em Brasília, meu ponto de vista só mudou realmente depois que eu fui para lá. É uma escola, um p... lugar! Tudo lá é maravilhoso, tudo foi muito importante, mal cheguei e vi sessenta cadeirantes! Nunca tinha visto tanto 'nêgo' de cadeira de rodas!! Cada um com seus problemas, uns piores, outros melhores. Eu via alguns fazendo algumas coisas que eu ainda não fazia, e pensava "Pô, se eles conseguem por que eu não conseguiria?" Foi isso o que me deu gás pra correr atrás e aprender a me virar. Minha mãe me deixou lá e voltou pra Sampa no mesmo dia, então eu tinha que aprender a tocar minhas rodas sozinha.

S: O que considerou importante durante o processo de reabilitação?
Tabata: Sem sombra de dúvida a troca de experiência foi fundamental, importantíssima. Porque a gente começa a encarar as coisas com mais naturalidade, não se sente a única na face da Terra a estar passando por tudo isso. Praticar esportes foi muito influente e divertido. Na fisioterapia comecei a cuidar mais do meu corpo que antes, ficar forte. O condicionamento físico, as aulas teóricas, tudo isso sem pagar um centavo! É tudo tão organizado que dava até medo de voltar pra casa e sair daquele lugar que pra mim parecia perfeito. Mas essa foi mais uma etapa a prosseguir. No Sarah também refiz a cirurgia na coluna. Durou treze horas! Minha mãe voltou pra ficar comigo nessa fase e nem acreditou em tudo que eu já fazia sozinha. São coisas simples do cotidiano mas que temos que aprender de novo como, por exemplo, trocar de calça. Precisei usar um colete durante um ano e oito meses, não podia sentar sem ele, até banho era de colete. O Sarah fez um novo transparente e eu já colocava umas blusinhas decotadas e coloridas e ficava 'style'! A gente fazia umas farras na varanda da enfermaria, com violão, pintei altos quadros, me diverti, e hoje posso dizer que tenho que agradecer a Deus e ao Sarah, com seus profissionais maravilhosos, por tudo que eu sou hoje.

S: O que mudou em sua vida depois do acidente? Você é jovem, sente falta de fazer algo em sua vida?
Tabata: Ser jovem e ser cadeirante pode parecer uma coisa horrível, é hipocrisia dizer que queria estar assim, mas já que estou tenho que viver bem. Temos duas escolhas: sermos felizes ou tristes. Cabe a nós decidirmos o nosso caminho. Não quero olhar pra trás e ver que não fiz nada esse tempo todo. No começo sentia falta de dançar. Hoje, danço na cadeira, faço teatro musical que envolve expressão corporal e voz e amo o que faço! Mudou tudo depois do acidente, mas isso não quer dizer que eu não possa fazer nada. Posso fazer tudo só que de um jeito diferente. Quem me conhece sabe que a cadeira é só um detalhe na minha vida, uma virgula, nunca um ponto final! Fico de pé com tala e andador, mas é só pra exercício, deveria ficar mais, mas a correria do dia-a-dia não permite muito, tenho que me cobrar mais.

S: O que considera que falta para ser incluída na sociedade? E as pessoas com deficiência, de maneira geral?
Tabata: A acessibilidade! Transporte público! É absurdo existirem ônibus que não são adaptados! Todos deveriam ser adaptados. Isso é liberdade de ir e vir, na hora que bem entender, direito de qualquer cidadão! Calçadas e ruas decentes para a locomoção com cadeiras de rodas, muletas ou até gestantes. E a conscientização da população quanto a tudo isso. Banheiros adaptados, portas mais largas, rampas e elevadores. Muita gente não sai de casa porque não tem acesso.

S: Qual seu maior sonho?
Tabata: Sucesso profissional com qualidade de vida. Ter tempo para fazer tudo que eu quero e amar o que eu faço. Poder ajudar quem está no começo da lesão. E ter um cantinho meu, com a minha cara e com as pessoas que eu amo sempre por perto.

S: Você se considera independente?
Tabata: Graças a Deus, sim! Sou independente, faço tudo sozinha e isso é muito importante. Mas é fato que todo mundo, deficiente ou não sempre precisa de alguém pra alguma coisa, e as vezes é tão bom saber que podemos contar com algumas pessoas.


BATE-BOLA

Signo: Virgem
Religião: Deus
Música: "A Paz" Gilberto Gil
Livro: É preciso algo mais
Cor: Vermelho
Estação do ano: Verão
Viagem inesquecível: A próxima
Amigos são ... tesouros
Família é ... a base da vida
Limitação é ... a ponte que leva ao crescimento
Preconceito é ... falta de educação
Sonhar é ... estar vivo
Uma mensagem para os brasileiros: "Por mais limitações que você tenha, saia de casa e corra atrás dos seus sonhos. Não coloque limites na sua vida, pare de reclamar de coisas fúteis, e viva intensamente pois a vida é maravilhosa, abençoada e ridiculamente curta. Faça arte e seja feliz, com o pouco que você tem, e esse pouco vale tanto, você nem sabe o quanto!"

Beijokas
Tabata Contri
www.tocandoasrodas.blogger.com.br




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