O primeiro ouro que o judô deu ao Brasil nestes Jogos Parapan-americanos veio dos golpes rápidos e precisos executados por Karla Cardoso, 25 anos. Com a presença de apenas quatro competidoras na categoria até 48 kg, a organização formou uma única chave. Todas contra todas e a vencedora ficaria com o lugar mais alto do pódio. Uma a uma, suas adversárias foram sucumbindo.
Primeiro a compatriota Ana Luiza Farias, depois a americana Christina Thomas, e finalmente a cubana Maria Fuentes, num confronto que se tornou efetivamente a final, já que Fuentes também havia vencido suas oponentes. Todas as três lutas de Karla não chegaram aos cinco minutos previstos. Vencedora por ippon, o nocaute do judô, ela teve um desempenho perfeito, não deixando dúvidas sobre sua superioridade.
|
A luta contra Maria Fuentes, que Karla
venceu por ippon, o nocaute do judô
|
Carioca, Karla nasceu um dia após o rompimento da bolsa de sua mãe. A demora na realização do parto ocasionou falta de oxigenação e o problema na visão. Oito graus de hipermetropia nos olhos. Hoje, são quatorze. Porém, somente aos 3 anos de idade ele foi percebido, quando passou a freqüentar a escola. Criança hiperativa e com problemas de relacionamento, encontrou no esporte uma válvula de escape.
"Não parava quieta um minuto sequer e não me socializava muito bem com as outras crianças da minha idade. Era muito companheira de meu irmão, que praticava judô no Grajaú Tênis Clube. Comecei a treinar e não parei mais", diz a judoca que hoje defende o Flamengo. Uma trajetória repleta de conquistas se iniciava.
Seu auge foi o ano de 2005, quando se tornou campeã mundial e campeã do Parapan da modalidade. Um ano antes, nas paraolimpíadas de Atenas, ficou com a medalha de prata. Em 2006 enfrentou o pior momento da carreira. "Não conseguia bons resultados e fiquei em quinto no mundial. O desânimo tomou conta de mim. Achei que entraria em declínio".
|
Antes de enfrentar a cubana, Karla
venceu a americana Christina Thomas
|
Mas os III Jogos Mundiais de Cegos, realizados em São Paulo há quinze dias, lhe devolveram a confiança, com a medalha de prata conquistada, num evento de nível altíssimo. "Passei a acreditar em mim novamente. E queria muito essa medalha no Parapan. É a minha cidade. Minha família e meu filho - Luiz Henrique de 2 anos - estavam aqui, torcendo por mim. O sentimento que tenho agora é de realização".
Cursando o terceiro ano de educação física na Universidade Estácio de Sá, Karla precisa conciliar os estudos com os treinos e os afazeres de mãe. "Vou para as aulas de manhã. A tarde, realizo uma sessão de uma hora e meia de exercícios físicos e a noite, três horas no tatame. Chego em casa e o Luiz invariavelmente está dormindo. Por isso o fim de semana é sagrado. É dele. Mas são momentos como o que estou vivendo agora é que me fazem acreditar que todo sacrifício vale a pena".
A ajuda financeira vem do governo federal, com o programa bolsa-atleta. Na universidade, não encontra respaldo algum. "Não existem textos ampliados, livros digitalizados, nada. Carrego minha lupa para cima e para baixo. Nem mesmo bolsa de estudo eles me concederam", conta a atleta que usa óculos no dia-a-dia. "Mas no tatame, óbvio, luto sem eles. Não enxergo praticamente nada". Mas convenhamos. Será que faria alguma diferença?