A velocista Ádria dos Santos, 33 anos, estréia na pista do Estádio João Havelange, no sábado, quando haverá as eliminatórias dos 200 m. No domingo, ela estará na final dos 800 m e, caso consiga classificação, dos 200 m. Uma contração na coxa esquerda, na semana anterior ao Parapan, mudou os planos de Ádria, que deixou de competir as provas de 100 m e 400 m na categoria T11, para atletas cegos. A prova dos 100 m aconteceu terça-feira. O Brasil levou a medalha de ouro com a velocista Terezinha Guilhermina.
"Estou nervosa e insegura", conta Ádria, mostrando que seus vinte anos de carreira e as dezenas de medalhas conquistadas não fizeram com que ela perdesse a humildade. Só em Paraolímpiadas a velocista acumula 4 medalhas de ouro, 6 medalhas de prata e 2 recordes mundiais, sendo um nos 100 m, com o tempo de 12s34, e outro nos 200 m, com o tempo de 24s99.
Recuperada da lesão, na quinta-feira, a atleta realizou um treinamento leve no João Havelange. "Corri devagar, só para ir soltando a musculatura. Velocidade mesmo só no sábado e, mesmo assim, com muita cautela." Ádria quer preservar a musculatura para as finais de domingo, quando a platéia poderá vê-la cruzando a pista a quase 30 quilômetros por hora, marca que seu guia, Rafael Krub, costuma registrar em seu velocímetro.
Você nunca disputou a prova de 800 m. Porque disputá-la agora?
É uma prova que vou fazer sem pressão, justamente por nunca ter disputado. Quero ver como me saio. Dependendo do resultado, vou incluir os 800 m em meu treinamento.
A público está habituado a vê-la nos primeiros lugares. Não tem medo da reação das pessoas caso corra mal?
Vou fazer a prova porque é algo que tenho vontade. Estou com 33 anos e sei que não sou imbatível. Se eu não tivesse me machucado, participaria da prova dos 100 m e correria o risco de perder, pois seria uma disputa muito apertada, já que a Terezinha Guilhermina tem obtido bons resultados. Não tenho a obrigação de estar sempre ganhando.Minha obrigação agora é conseguir me superar.
Superar como?
Quero completar o 200 m e levar uma medalha daqui. Não importa qual seja.
O Brasil tem condições de continuar tendo boas marcas no atletismo?
Temos novos atletas que estão indo muito bem no atletismo masculino, como o Yohanson Ferreira (que ganhou duas medalhas de ouro na categoria T46, para amputados de braço) e o Odair dos Santos (que ganhou três medalhas de ouro na categoria T11, para cegos). No feminino a situação é outra. Eu ainda pretendo disputar as Paraolímpíadas de Pequim, em 2008, assim como a Terezinha, que está com 28 anos, mas o ideal seria podermos contar com atletas mais jovens. Infelizmente, treinar é algo complicado para o atleta cego, pois ele precisa de um treinador e de um guia. Nem todos têm condições de pagar por isto. Outro problema é a questão da superproteção das famílias.
Como foi seu início de carreira?
Eu corria na escola, quando ainda tinha 10% da minha visão (Ádria possui retinose pigmentar, doença que provoca perda gradual da visão). Os meninos ficavam loucos comigo, pois eu ganhava sempre. Com 13 anos, passei a treinar na Associação de Deficientes Visuais de Belo Horizonte. Comecei nas provas de campo (saltos e lançamentos), mas me encontrei nas corridas de velocidade, pois sempre fui muito dinâmica.
Quando disputou a primeira prova?
Foi em Curitiba, em 1987, quando ganhei a prova de 200 m e ainda bati o recorde brasileiro, com um tempo de 29s6. Atualmente, minha melhor marca é o recorde mundial (ainda não batido) que conquistei nas Paraolimpíadas de Sidney, em 2000, com um tempo de 24s9.
Qual a importância do guia para um velocista cego?
O guia é muito importante.Tive ótimos guias em minha carreira, cada um com um estilo diferente. Para que a sintonia seja boa é importante que o guia tenha consciência de seu papel, que é apoiar o atleta.
E porque a necessidade de trocar de guias?
Todos os meus guias foram importantes para minha carreira e precisei escolher o melhor para cada momento. As trocas são bem comuns. Não aconteceu só comigo. Atletas de todos os países trocam de guia constantemente. Meu atual guia é o Rafael, mas, se a dupla passar a não funcionar bem, precisarei trocá-lo também.
Por enquanto não é o caso?
Não, nós temos uma sintonia muito boa. Somos namorados há 3 anos, o que apenas fortalece a relação profissional. Ele me respeita muito e tem consciência do papel dele.
Qual foi o melhor momento de sua carreira?
Foi nas Paraolimpíadas de Sidney, em 2000, quando quebrei o recorde mundial nos 200 m.
E o pior momento?
Os piores momentos são sempre ligados ao aspecto físico. As três semanas que antecederam as Paraolímpiadas de Atenas, em 2004, foram as piores de minha carreira. Me machuquei em uma fase em que estava muito bem preparada.
PRINCIPAIS TÍTULOS DA CARREIRA
1988
Paraolimpíadas de Seul: duas medalhas de prata, nos 100 m e 400 m.
1992
Paraolimpíadas de Barcelona: medalha de ouro nos 100 m.
1996
Paraolimpíadas de Atlanta: três medalhas de prata, nos 100 m, 200m e 400 m.
2000
Paraolimpíada de Sydney: duas medalhas de ouro, nos 100 m e 200 metros. Medalha de prata nos 400m
2003
Mundial da IBSA, no Canadá: duas medalhas de ouro, nos 100 m e 200 m, e medalha de prata nos 400 m.
Mundial de Atletismo, em Paris: medalha de ouro nos 200 m.
Parapan-americano de Mar del Plata: medalha de ouro nos 100 m.
2004
Paraolimpíada de Atenas: medalha de ouro nos 100m e duas medalhas de prata, nos 200m e nos 400m.
2005
Copa do Mundo Paraolímpica, na Inglaterra: medalha de prata nos 200 m.
Mundial de Atletismo: medalha de ouro nos 200m.
Aberto Europeu de Atletismo Paraolímpico, na Finlândia: duas medalhas de ouro, nos 100 m e 200 m.
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